Volta às aulas on line e as perdas

É hora de falar de volta às aulas. Mas, antes de tudo, quero falar de perdas. Em 2020 perdemos muita coisa. Perdemos amigos, parentes, conhecidos, pessoas que a gente admirava. Ficamos sem a convivência com os outros. Alguns perderam seus empregos. Todos perdemos o sossego.

As crianças perderam ainda mais, na minha opinião. E não estou falando aqui de perder matéria. De perder o ano letivo. Estou falando de coisas que elas perderam e que a gente, muitas vezes,  nem se dá conta.

Porque estamos lidando com outras perdas. Vivendo nosso luto. Ou seja, estamos com tanto medo do futuro que não conseguimos sequer dar uma espiada no presente. Mas, se você convive com crianças, assim como eu, experimente fazer esse exercício: pare um minuto para sentir tanta coisa legal – e importante – elas deixaram de viver nesse ano.

Volta às aulas

Acho que minha ficha caiu hoje por vários motivos mas, principalmente, porque ontem foi dia de volta às aulas aqui onde moramos. Volta às aulas On line. Ah, como eu gostava desse dia, na minha época, quando a volta às aulas era presencial. Lembro de escolher a roupa com cuidado, uma semana antes. De ficar ansiosa para acordar no dia propriamente dito. Da alegria de rever meus amigos pra contar como tinham sido as férias. De conhecer gente nova da classe, rever os professores. Lembro do sabor do meu salgado preferido na cantina. Bons tempos!

Nossas crianças não tiveram nada disso ontem. Viram os amigos e os professores por duas horinhas…na tela do computador. Ninguém conversou, brincou, contou novidades pro outro. A professora, coitada, preocupada com a conexão e a ferramenta de videoconferência – que não parava de dar pau – nem teve tempo de conhecer os novos alunos direito. Passou instruções, trocou uma ideia nervosa com cada um e só.

Nina e Maitê não tiveram a chance de contar pras outras crianças que, durante as férias, o pai construiu pra elas uma tirolesa entre duas árvores no quintal. Ninguém ficou sabendo que as duas não foram ao Brasil visitar os avós, como fazem todos as anos nesse período.  Elas também não sabem o que os amigos fizeram desde que se viram, pela última vez, em março.

Mesmo sabendo que seria assim frio, estranho, no domingo, véspera do início das aulas, rolou ansiedade na minha casa. Óbvio também que rolou dúvida na hora da escolha da roupa, do penteado. Mas na hora H foi tudo tão mecânico. Tudo tão sem emoção. Tão estranho…que me deu pena.

Último dia de aula

Lembrei que elas não tiveram último dia de aula também. Nada da festa que sempre existe. Nem de despedidas dos amigos e dos professores desejando reencontrar todo mundo em breve. Ninguém assinou na camiseta de ninguém. Não houve quem programasse encontros nas férias. Um belo dia simplesmente pegamos as duas na escola e fomos viajar para curtir o Spring Break. Seria uma viagem de uma semana. Faltavam mais de dois meses para o fim do ano letivo. Em breve elas estariam de volta em suas classes. Mas esse dia não chegou.

As aulas voltaram, mas on line. Todo mundo tenso. Sem saber o que fazer. Quando o último dia de aula chegou elas se despediram dos amigos e professores de um jeito ainda mais esquisito. Desligando o computador. Não teve comemoração. Planos, bagunça no intervalo. Nada. Elas apertaram um botão e fim.

Tenho fé de que tudo isso é passageiro. Que, em breve, elas terão primeiro e último dia de aula como tem que ser. Mas sei lá…só sei que ontem me deu uma tristeza.

P.S.: é claro que diante de todas as perdas que estamos vivendo o primeiro e o último dia de aula são besteiras…mas estou nostálgica essa semana e resolvi colocar pra fora o que estou sentindo. É só um desabafo.

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